quarta-feira, 15 de julho de 2009

Dura lex, sed lex.


Cá estou eu com minha máquina de escrever, como sempre cheio de idéias, porém como na maioria das vezes sem inspiração alguma. Sento-me sempre nessa mesa de canto, fico aqui estático, fingindo que estou me concentrando, finjo estar em transe artístico, eu sei que é ridículo, mas cria uma aura de mistério. Peço uma xícara de café atrás da outra, já nem sinto mais o gosto, na verdade acho que estou ficando meio eufórico, ou ansioso, sei lá, fico estralando os dedos, minhas mãos já doem, encosto minha testa na mesa.

O ambiente era simples, mas aconchegante, do tipo familiar, era uma lanchonete já antiga, mas bem cuidada, parecia ser um negócio da família. Era possível avistá-la de longe, era amarela, com detalhes vermelhos, o estacionamento era pequeno, não havia mais do que dez vagas, no alto do telhado ficava o letreiro luminoso “Mr°. Cluckys” .Logo ao entrar avistava-se um enorme balcão com vários banquinhos á beira, havia dez mesas encostadas aos pés das janelas, toda a decoração do lugar era já velha, mas ainda bem conservada, tudo em vermelho e amarelo. Era uma lanchonete bem movimentada, a vizinhança gostava de lá, era notável que os clientes eram sempre os mesmos, por isso os funcionários e clientes já se tratavam por “você”, ou usavam os seus nomes próprios e apelidos.

Hoje o movimento está razoável, nada fora do comum, em uma das mesas da ala esquerda há uma família tomando seu café da manhã, parece ser uma família feliz, todos sorridentes e conversativos, o pai de camisa xadrez e calça marrom, aparenta ter seus cinqüenta e poucos, a mãe é uma mulher simples, cabelos loiros, as crianças aparentam ter entre treze e nove anos, são três, duas meninas e um rapaz. Numa mesa mais ao fundo, na extremidade oposta a que me encontro, tem um jovem, aparenta ser um desses “emos”, em seu rosto pesa uma expressão de tristeza profunda, ou depressão, ele está tomando um refrigerante, que aliás não é o mais recomendado para uma boa saúde, ainda mais a essa hora da manhã. No balcão tem uma moça, uma bela moça diga-se de passagem, bem arrumada, parece ser uma dessas recepcionistas de dentista, com cabelos ruivos, salto alto e unhas bem feitas. Ainda no mesmo balcão mais adiante há um homem gordo, com a barba por fazer , usando um boné desses de rodeio, aparentemente é o dono do caminhão que se encontra no estacionamento. As garçonetes ficam caminhando pelo estabelecimento abastecendo as canecas de café, são duas, uma senhora já idosa, e uma moça. Na cozinha parece haver apenas um velho cozinheiro. Ainda é bem cedo, provavelmente está passando o jornal da manhã, eu peço a garçonete que ligue a TV, imagino quais são as novas e as velhas, mais tragédias e genocídios, catástrofes e crimes políticos, mas aparentemente hoje a só se fala de uma coisa, a morte de mais um rei, um rei da música, o rei do pop.
Logo todos irão atentar seus olhares para a TV, mesmo aqueles que sempre o repreenderam ficarão comovidos, mesmo aqueles que sempre disseram que ele era culpado das denuncias de abusos sexual contra crianças se tornarão grandes fãs, relembrarão os grandes sucessos, cantarão e até dançarão de novo, todos falarão “Ele era um gênio!”, “Ele era tão bonito. Por que será que fez tantas plásticas?”, “A culpa é do pai, o pai é um louco, vivia abusando dele”. Logo todos na lanchonete, começarão a comentar e discutir todas essas idéias, logo o caminhoneiro dirá “É, tão de repente né?”, a garçonete responderá “Tão novo! Coitado.”, então a recepcionista dirá “Nossa, eu nem imaginava que ele já tivesse cinqüenta anos, tava tão em forma.”. O pai de família dirá aos seus filhos “Eu lembro quando ele começou. Lembra amor daquela música que a gente gostava de dançar? Como era mesmo? Trilher, cause this is trilher!. O emo no fundo da lanchonete ficará boiando, sempre achou o cara um lunático, além do que seus problemas o impedem de se importar com a vida alheia, ele então dirá para si mesmo ”Morreu? Antes ele do que eu!”. As vozes logo se tornarão indiscrimináveis, uma discussão avulsa, muitas idéias, muitas lendas, afinal o cara se tornou um mito, falarão sobre vitiligo, lúpus, câmara hiperbárica, pedofilia, talento indiscutível, cabelos falsos, nariz postiço, queixo implantado, falarão sobre assuntos que não dominam, opiniões próprias. Até que da cozinha o velho gritará “A verdade é que esse cara sempre foi um safado, ficava comendo as criançinhas, agora só porque morreu todo mundo fica dizendo que ele era isso, que era aquilo”, então o caminhoneiro retrucará “Peraí, nada disso que o senhor falou foi provado”, a garçonete dirá “Eu num sei não”, a recepcionista logo se levantará, pagará a conta e dirá “É melhor eu cuidar da minha vida, tenho mais o que fazer, afinal eu ainda tô viva”, então irá embora. Mas a conversa não parará por ai, então o pai de família entrará na discussão aberta,então as garçonetes, discutirão entre si, o cozinheiro discutirá com o caminhoneiro, eu ficarei aqui no meu canto apenas observando suas mentes se degladiarem, a mãe de família que até então estaria quieta levantará a voz, do meio de toda essa bagunça alguém dirá “A culpa é desses viados que colocaram ele na justiça com essa história de pedófilo. Se eu pegasse aquele viadinho que começou tudo isso”.
Ainda em meio a discussão entrará um homem, cerca de vinte e poucos anos de idade, tipo comum, com um maço de cigarros no bolso da camisa, ele se sentará no último banquinho do balcão e pedirá um copo de whisky. Logo a garçonete mais velha o servirá, então ela voltará para perto do caminhoneiro e falará “Disfarça, mas lembra o cara, aquele que fez a primeira denuncia? Então é aquele cara ali”, o caminhoneiro então dirá “Verdade? Filho duma puta”, então ele se virará e delatará o homem aos demais dos clientes. Logo todos estarão olhando para o homem, sozinho em seu canto, bebendo seu whisky, logo ele perceberá, olhará ao redor com uma interrogação encima da cabeça, o caminhoneiro se levantará e dirá “Então, você se sente feliz? Hein?”, o homem questionará “Feliz pelo quê?”, o pai de família dirá “É, agora vai se fazer de desentendido? Você acabou com a carreira do cara com aquela história de pedofilia”, o cozinheiro gritará “Parem com essa bagunça no meu estabelecimento”, o caminhoneiro dirá “Olha aqui, esse cara fudeu com a vida do coitado, ele merece o dele”, o pai de família gritará “Eu também acho”, a mãe de família o repreenderá “Olha as crianças amor”, então todos começarão a discutir. Tudo se tornará uma loucura, o caminhoneiro proporá uma inquisição, a mãe de família logo pegará as crianças pelas mãos e as conduzirá para o carro, em meio a toda essa zorra o emo se levantará e bradará ”Mas que droga, vocês são um bando de hipócritas, o que vocês tem haver com a vida dele? Por que não o deixam em paz?”. então O homem se levantará, largará uma nota de vinte sobre o balcão, e tomará a saída, todos ficarão emudecidos, o pai de família pagará a conta e levará sua família embora, o caminhoneiro arrumará as calças, pagará sua conta e sairá bufando, as garçonetes demonstrarão um leve constrangimento, o cozinheiro voltará para dentro da cozinha, o emo se sentará e continuará quieto e cabisbaixo bebendo seu refrigerante e eu aqui do canto relatarei tudo. Amanhã quando eu estiver aqui novamente, tomando meu café da manhã, quando houver alguma família, algum adolescente problemático, algum trabalhador apressado, algum viajante e a garçonete tornar a ligar a TV veremos ainda as mesmas notícias e especulações, veremos os preparativos do grandioso velório, e veremos quase ao fim do jornal algum repórter dando a notícia “Hoje, dia tal do mês tal do ano tal, foi encontrado com os pulsos cortados em seu banheiro, Fulano de Tal, um dos garotos que haviam acusado o rei do pop de pedofilia em 1993, morreu aos 23 anos de idade e deixou apenas algumas palavras escritas na contra capa de um dos discos do rei do pop : Vocês não fazem idéia de como é duro ser quem sou”.

É claro que tudo isso não passou de um retrato vertiginoso da mente de um escritor. É claro que tudo isso não passa de um retrato vertiginoso da mente de um escritor. É claro que tudo isso não passará de um retrato vertiginoso da mente de um escritor.

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